um diário dos dias inúteis
22
Fev 12
publicado por desempregado freelancer, às 10:19link do post | comentar | |

É moralmente corrupto pensar que apenas quem trabalha deve receber o vencimento no final do mês: os que, como eu, contribuiram com o seu dízimo durante o seu tempo de trabalho, mais os que trabalharam toda uma vida e agora gozam uma merecida reforma, e ainda os que ainda não estão em idade de trabalhar, juntos com os que, por motivos de saúde não podem trabalhar, deveriam, como os restantes, receber no final do mês.

Bom, diga-se a verdade: eu vou receber no final do mês, mas com um mês de atraso.

 

Viemos levantar o subsídio de desemprego! Paguem-nos e ninguém se magoa.

 

Os milhares de desempregados que, como eu, estão à espera do subsídio como do pão para a boca - metáfora mais que adequada - sofrem, diria eu, de uma ansiedade que se vai tornando crónica com o tempo. A ansiedade de já não ter dinheiro para os transportes, a ansiedade de já não ter dinheiro para a comida, a ansiedade de já não ter dinheiro para honrar os seus compromissos com bancos e outras instituições de crédito, a ansiedade de já não ter dinheiro para pagar a mensalidade da escola dos filhos.

Toda esta ansiedade traduz-se em nada menos do que no fervilhar da pressão, sem válvula de escape que sirva os seus propósitos (com o tempo vamos ficando fartos de lenitivos televisivos e de terapias ocupacionais disfarçadas de formação ou coisas do género), pressão que um dia estourará. Porque não somos só nós, é toda uma Europa.

 

Um estado que não honre as suas obrigações sociais não possui autoridade moral para obrigar os outros a cumprí-las e, assim, qualquer patrão pode desculpar-se com a crise, atrasando pagamento dos salários para calendas mais propícias. Um estado que não honra as suas obrigações sociais é um estado que não pensa no seu Povo. Um estado que não honra as suas obrigações não é um estado, é apenas uma colecção de gestores incapazes.

 

Entretanto, escrevo este post aguardando o que me é devido - sim, o que me é devido! -, mantendo-me em casa, sem independência, sem liberdade, sem café e sem tabaco. Será que o estado anda preocupado com a minha saúde? E a notícia: vamos passar a receber sempre no mesmo dia. Mas não se sabe em que dia, nem quando será a medida posta em prática. Nem se será posta em prática, acrescentaria.


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