um diário dos dias inúteis
23
Fev 12
publicado por desempregado freelancer, às 11:10link do post | comentar | |

Ainda jovem, logo após o cumprimento do serviço militar, fui convidado a tornar-me delegado sindical num dos agregados à CGTP. Curioso, fui com o dirigente sindical que me convidou a uma reunião em Lisboa.

Devo esclarecer que sou um espírito livre em relação a dogmas ideológicos, e ainda mais o sou em relação a obrigações de disciplina partidária ou, no caso, sindical. Creio que, mesmo sendo activamente militante de uma causa, sindicato ou partido, devo salvaguardar a minha liberdade de pensamento, opinião e expressão, bem como a liberdade de agir em conformidade com estas. Foi esta minha forma de estar que determinou o fracasso do meu recrutamento para as fileiras sindicalistas. O problema é que achei o discurso sindical demasiado impregnado de ideologia e de propaganda, nos menos bons sentidos do termo, sendo visíveis as conotações com o discurso partidário do Partido Comunista, sintomáticas da influência que este exercia no sindicato. Não obstante, nunca deixei de considerar a actividade sindical, especialmente a exercida no âmbito da CGTP, como algo verdadeiramente essencial à manutenção dos direitos dos trabalhadores e à manutenção da própria democracia.

 

 

A verdade é que, apesar de muitos sectores da vida política, nacional e internacional, tentarem ofuscar o conceito de "luta de classes" com a luz do liberalismo económico, afirmando que este conceito é anacrónico e que já há muito tempo deixou de fazer sentido, a luta de classes existe, e talvez mais acentuada do que nunca.

Não é despropositado, como afirmam alguns, falar do tema. Menos depropositado ainda é fazer dele a luta em si. Logicamente, creio, devemos adaptá-la à nova realidade do século XXI, e despí-la de preconceitos de ideologias ortodoxas que estagnaram no tempo. É assim que vejo a importância do sindicalismo no panorama actual.

O sindicalismo pode e deve ser a alternativa ao sistema partidário (embora não nos creia já preparados para formas de anarco-sindicalismo, dada a falta de formação para uma auto-gestão e dado o problema da acção directa), creio firmemente que é ele quem melhor está capacitado para agir em nome de uma população que se quer activa, culta e empreendedora. Ninguém melhor do que um sindicato sabe e pode auscultar a vida real e toda a problemática do viver. Assim, seria bom os sindicatos considerarem uma reformulação ideológica que considere o sistema capitalista como ponto de partida para uma sociedade mais justa e igual em oportunidades. O problema está na distribuição da riqueza, na gestão deficiente, e na desigualdade das oportunidades de acesso ao trabalho e à educação. Juntamente com isso, os sindicatos deveriam apostar a sério na formação dos seus quadros, dirigentes e delegados, uma formação que lhes permita entender os fenómenos sociais (políticos, económicos e sociológicos), de forma mais abrangente e profunda, sem medo que estes possam ser "contaminados" pela ideologia das escolas e universidades.

 

E, por fim, o que me traz aqui a falar de sindicalismo. Os sindicatos são representantes dos trabalhadores e devem, por isso, lutar pelos seus direitos. Mas a luta sindical não se esgota aqui.

Mais do que nunca, a prática sindical deve assentar num direito básico democrático: o do direito ao trabalho e, por que não, o do direito à educação - já que interligam na exigência de um país que se quer dsenvolvido e em evolução contínua.

A realidade laboral actual identifica-se por alguns vectores básicos - chamo-lhes vectores por representarem algo em curso, como uma força -, que necessitam urgentemente de acções específicas:

  • Os trabalhadores empregados a quem, um a um, vão sendo retirados direitos conquistados;
  • Os trabalhadores precários;
  • Os estudantes em busca de um primeiro emprego; e
  • Os trabalhadores desempregados.

Estas quatro forças são aquelas sobre as quais o sindicalismo se deve apoiar e acerca das quais deve intervir fortemente. O sindicalismo não pode apenas dar ar da sua graça em prime-time mediático à porta de uma empresa que despede, ou em concentrações mais ou menos preenchidas.

Deve, isso sim, congregar todos os que trabalham, os que gostariam de trabalhar, e os que perderam esse direito. Congregar e tomar atitudes dirigidas.

Os dirigentes sindicais deveriam pensar que, desempregados, somos centenas de milhar.

Suponho que isso desse uma bela manifestação "Pelo Direito ao Trabalho". Imagino um desfile de desempregados rumo aos Aliados ou ao Terreiro do Paço, uma demonstração real, viva e inegável do estado a que o país chegou: um estado em que não consegue garantir direitos básicos de sobrevivência aos seus cidadãos, enquanto discute internamente o preço da água engarrafada e dos vasos em que esta há-de ser servida aos Senhores Deputados da nação, provavelmente por um contratado temporariamente.


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