um diário dos dias inúteis
27
Fev 12
publicado por desempregado freelancer, às 15:16link do post | comentar | ver comentários (4)
Monkeuy Business

 

- Portugal tem, de um lado, trabalhadores a ganhar ordenados de anedota.

- Portugal tem, de outro lado, gestores a ganhar múltiplos chorudos dos ordenados dos trabalhadores que mantêm na linha.

- Portugal tem, ainda de outro lado, desempregados que não conseguem outra colocação a não ser num trabalho qualquer em que são explorados ainda mais avidamente devido à sua condição.

- Portugal tem leis que permitem o despedimento sem grandes discussões, enfim, o despedimento porque sim.

- Portugal não tem economia, tem apenas uma recessão financeira.

- Portugal não tem empreendedores, tem apenas patrões que tentam enriquecer o mais possível e o ais rapidamente possível.

- Portugal tem uma noção de responsabilidade social baseada em citações de gurus.

- Portugal tem uma gestão de empresas baseada nessas mesmas citações.

- - Portugal tem governantes que dizem o que os gurus dizem, e fazem o que FMI e Merkozy mandam.

Portugal tem um governo de gurus.

 

Não sei se ria ou se os insulte. O Ministro Relvas vem a terreiro lançar uma iniciativa inter-ministerial ou inter-qualquer-coisa que, segundo ele, tem como objectivo resolver o desemprego jovem. Já o Ministro Álvaro explica, no seu peculiar modo de blogger canadiano, que irá criar a figura de Gestor de Carreira nos centros de emprego e que essa medida, para além de isentar esses centros de despesas com direcções desnecessárias, será a responsável por criar nada mais nada menos do que cerca de três mil empregos - 3.000 - por mês. Uma espécie de Egor do IEFP, por assim dizer.

Isto só pode ser delírio.


23
Fev 12
publicado por desempregado freelancer, às 10:30link do post | comentar | ver comentários (8)

O nome da actividade é estupidamente redundante: a procura é necessariamente activa. Não existe procura passiva. Mas, como tudo o que se relaciona com o desemprego se reveste de um carácter surreal, alinhemos na chalaça.

Por procura activa de emprego entende-se a obrigatoriedade de guardar registos de pedido de emprego, em número de três mensais, segundo me explicou o senhor do IEFP na altura em que "meti os papeis". Segundo esse senhor, a coisa funciona mais ou menos assim: qualquer carta enviada ou resposta a anúncio anúncio que façamos deve ser religiosamente guardada, pois nunca se sabe quando iremos receber ordens para provar que andamos à procura de emprego. Ainda segundo o mesmo senhor, caso não tenhamos anúncios respondidos ou cartas enviadas, bastará utilizar um formulário que me entregou, e passar, por exemplo, num café ou numa loja, para que o proprietário ou o gerente carimbem o referido documento, garantindo assim que procuramos emprego activamente, mas que não tivemos sorte. A procura activa de emprego, segundo o IEFP, não se relaciona efectivamente com a tentativa de arranjar trabalho. É apenas um pro forma.

Quero com isto dizer que, tal como as restantes medidas relacionadas com os desempregados, esta é uma boa anedota. Eu tenho a minha caixa de e-mail recheada com centenas de respostas a anúncios, candidaturas espontâneas e solicitações de entrevista. Estão lá, e vão acumulando. Nunca ninguém me pediu nada. Em contrapartida, conheço uma pessoa que está com problemas pois uma das candidaturas que apresentou passou para o mês seguinte, tendo um dos meses apenas duas candidaturas registadas.

 

 

Por fim, uma coisa importante: de cada vez que alguém aparece na loja, por exemplo, do Senhor Choramingas, é visto como o Senhor Choramingas vê os que por lá passam: mais um que anda a viver às custas do povo pagante de impostos, e que o que quer é andar ao alto, de carimbo em carimbo, de subsídio em subsídio.

Vai daí que, se perguntarmos a uma destas pessoas que carimbam formulários a desempregados e revelam o nojo que por eles têm nos blogs, o que fazem para acabar com o problema, certamente responderão que já ofereceram emprego a uns quantos, e que eles não quiseram trabalhar. O problema que os Senhores Choramingas não entendem é que as pessoas que procuram emprego, procuram a oportunidade de trabalho digno e pago de forma justa, e não uma qualquer forma de exploração que "aceitamos se quisermos".

A realidade é que os empregos oferecidos pelos Choramingas deste mundo acabam por pagar menos do que o Instituto de Segurança Social, e dar mais despesa. O que o Senhor Choramingas tem que fazer é investir em formação e aceitar uns quantos "formandos" patrocinados pelo Estado e, assim, aderir à nova forma de escravatura institucionalizada, paga pelo erário público, que já pagava pouco a tantos.

 

(Ao Senhor Choramingas deste blog aconselharia ainda a não usar a Internet que o Estado paga - e, por conseguinte, nós - para vir abandalhar um blog que se quer minimamente consistente. Ou não tem internet na loja?)


06
Fev 12
publicado por desempregado freelancer, às 16:20link do post | comentar | ver comentários (2)
As filas de desempregados são uma das novas realidades nas cidades portuguesas

 

À primeira vista a definição de "desempregado" parece simples: trata-se de alguém sem trabalho. Mas a realidade de ser desempregado é muito mais complexa.

Existem desempregados para todos os gostos, desde os que simplesmente nunca conseguiram começar a trabalhar aos que, após dezenas de anos, se vêem nesta situação. Se uma característica é transversal à "classe" é a de se tratarem de indivíduos que, na sua maioria, dependem do trabalho e da sua retribuição pecuniária para sobreviver de uma forma independente, digna e livre.

 

Creio que esta característica permite, desde logo, acrescentar mais um parágrafo à definição de desempregado, pelo que iniciaríamos a sua caracterização da seguinte forma:

Desempregado: aquele que, sem trabalho, não obtém o necessário rendimento financeiro que lhe permita viver de uma forma independente, livre e digna de qualquer outro cidadão.

Mas sabemos que podemos ir mais longe na caracterização destes desempregados, se entrarmos um pouco mais nas especificidades da "classe". Então, temos os desempregados do primeiro emprego, jovens que após o seu ciclo de estudos aguardam a oportunidade de entrada no "mercado de trabalho" vagueando, com sorte, entre estágios não-remunerados; temos os desempregados jovens, que vagueiam entre contratos a prazo sem futuro à sua frente; temos os desempregados profissionais que, com competências e habilitações ou não, se vêem nesta condição ao fim de alguns anos de trabalho; e temos os que, passadas dezenas de anos de trabalho, se vêem na circunstância de nada terem para fazer e sem idade que os auxilie.

A todos estes acresça-se a possibilidade de terem uma família a seu encargo.

 

Uma vez mais, existe uma característica inerente a todas estas sub-classes de desempregado: a de terem um sério problema em relação ao futuro e à desejável estabilidade que deles faça cidadãos produtivos e responsáveis, perfeitamente integrados na sociedade. Assim, acrescentemos então algo mais à nossa definição:

Desempregado: aquele que, sem trabalho, não obtém o necessário rendimento financeiro que lhe permita viver de uma forma independente, livre e digna de qualquer outro cidadão contribuinte para com a sociedade em que se insere. O desempregado é, desta forma, um encargo, sendo difícil a sua integração normal no tecido social em que se move.

Experimente, durante dois ou três dias, esvaziar os seus bolsos de dinheiro, guardar o cartão de crédito longe da vista e do coração, esquecer o automóvel, e passar esses dois ou três dias sem nada de útil para fazer, a não ser possíveis bricolages ou afazeres domésticos. Depois, imagine que isso dura há semanas, meses, anos... e talvez tenha um pequeno vislumbre do que é ser desempregado.

Não, já não peço para imaginar ter cinquenta anos de idade e o ciclo preparatório como "habilitações literárias", nem peço para imaginar que tem uma família para sustentar ou um filho na faculdade. Pense somente em si e diga-me alguma coisa. Auxilie à definição de "desempregado".

 

Voltaremos ao tema mais tarde.


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